“Sursum corda!” – Elevai os corações! É este o convite que ressoa em cada Santa Missa, conduzindo o povo de Deus à comunhão com o mistério pascal de Cristo. Nestas palavras se concentra o gesto da Igreja que, desde os primeiros séculos, aprendeu a elevar o coração e o olhar para o alto, em atitude de adoração, gratidão e oferenda. A esse movimento espiritual e litúrgico, os Padres da Igreja deram o nome de anáfora, palavra que, etimologicamente, significa “elevar, oferecer, levar para o alto”.
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Esta elevação não é apenas simbólica: ela exprime a realidade mais profunda da fé cristã. Na Oração Eucarística, toda a Igreja se eleva em Cristo, o Sumo e Eterno Sacerdote, para oferecer ao Pai o sacrifício da redenção. A anáfora é, portanto, o coração pulsante da Liturgia, o ápice de toda ação eclesial e o lugar por excelência da comunhão entre o céu e a terra.
Desde a Igreja primitiva, a anáfora se configurou como o centro da celebração eucarística. São Justino, no século II, descreve com simplicidade e profundidade este momento sublime: “Ele [o presbítero] faz subir louvor e glória ao Pai do universo, no nome do Filho e do Espírito Santo, e rende graças longamente pelo fato de termos sido julgados dignos destes dons.” Essa tradição viva, transmitida de geração em geração, manifesta a consciência de que a Eucaristia não é criação humana, mas dom recebido e continuamente renovado pelo Espírito Santo.
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As diversas famílias litúrgicas, seja do Oriente ou do Ocidente, expressaram, por meio das suas múltiplas anáforas, a riqueza inexaurível do mistério de Cristo. A variedade não é sinal de divisão, mas expressão da catolicidade da Igreja: uma única fé, celebrada em múltiplas formas, todas convergindo para o mesmo louvor trinitário: “Per ipsum et cum ipso et in ipso…”.
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Assim, a Igreja Sírio-ocidental, a Copta, a Etíope e tantas outras conservaram, com veneração, dezenas de anáforas, enquanto o Rito Romano, fiel à sua sobriedade e nobre simplicidade, viu florescer o seu próprio Cânon Romano, enriquecido ao longo dos séculos. Em todas, ressoa a mesma convicção: é “bom e justo dar-vos graças, Senhor, Pai Santo”.
A pluralidade das anáforas é uma riqueza espiritual que deve ser redescoberta. Nas últimas décadas, a introdução de novas Orações Eucarísticas no Missal Romano manifestou uma abertura à tradição oriental e uma sensibilidade pastoral legítima. Contudo, essa multiplicidade corre o risco de ser reduzida, na prática, a uma uniformidade empobrecida, quando se escolhe quase exclusivamente a Oração Eucarística II por mera conveniência ou brevidade.
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Tal prática pastoral, ainda que compreensível, não pode tornar-se norma. Pois a liturgia, enquanto obra de Cristo e da Igreja, não é medida pela eficiência do tempo, mas pela profundidade do mistério celebrado. Cada anáfora possui uma teologia, uma espiritualidade e uma linguagem próprias, que enriquecem a fé dos fiéis e ajudam a Igreja a celebrar a totalidade do mistério pascal.
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Convido, pois, os presbíteros a aprofundarem-se na espiritualidade das Orações Eucarísticas, redescobrindo nelas o itinerário espiritual que conduz do louvor inicial à doxologia trinitária final. Celebrar a liturgia é deixar-se conduzir pelo Espírito, e não apenas “cumprir um rito”.
No século IV, a Igreja viveu um tempo fecundo de reflexão sobre o mistério eucarístico. Santos como Ambrósio, Agostinho e João Crisóstomo, em diferentes tradições, ensinaram com sabedoria que o altar é o lugar da transformação: não apenas do pão e do vinho, mas também da vida dos fiéis. Por isso, cada anáfora é catequese viva, é teologia rezada e proclamada.
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O desenvolvimento das anáforas nunca foi resultado de imposição ou invenção arbitrária, mas fruto do crescimento orgânico da tradição, iluminada pelo Espírito Santo. A liturgia não se fabrica; ela nasce da fé orante do povo de Deus. Quando se tenta moldá-la segundo critérios humanos de utilidade, corre-se o risco de enfraquecer sua força espiritual e pedagógica.
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Assim, o verdadeiro renovamento litúrgico não consiste em multiplicar fórmulas ou abreviar ritos, mas em aprofundar o sentido do mistério, deixando que cada palavra, gesto e silêncio revelem a presença do Deus vivo que age na Igreja.
O Catecismo da Igreja Católica recorda que “com a Oração Eucarística, chegamos ao coração e ao ápice da celebração” (n. 1352). Nela, a Igreja une-se à ação de graças de Cristo ao Pai e participa do seu sacrifício redentor.
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Quando o sacerdote pronuncia as palavras da anáfora, é toda a Igreja que fala: o Corpo unido à Cabeça. Nesse momento, a criação inteira é recapitulada em Cristo e oferecida ao Pai “em unidade com o Espírito Santo”. Por isso, cada “Amém” do povo é profissão de fé, é selo da comunhão que faz de nós um só corpo e um só espírito.
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A anáfora nos ensina que a liturgia é sempre um movimento ascendente e descendente: elevamos a Deus o louvor, e d’Ele recebemos a graça. O altar torna-se, assim, o ponto de encontro entre o céu e a terra, entre o divino e o humano, entre a oferenda e o dom.
Redescobrir o Coração da Liturgia
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Amados filhos da Igreja, redescubram a beleza e a profundidade das anáforas. Que cada sacerdote celebre com consciência e reverência; que cada fiel participe com o coração elevado, reconhecendo no altar o lugar do amor supremo de Cristo.
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Que as diversas Orações Eucarísticas sejam, de fato, expressão da riqueza da fé, e não da pressa dos homens. Que cada comunidade cristã possa saborear o silêncio, a beleza e a densidade espiritual da liturgia, como verdadeira escola de oração e comunhão.
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A Liturgia é o ato de Cristo e da Igreja. Quando celebramos a Eucaristia com fé, o Espírito Santo transforma o pão e o vinho, mas também transforma a nós mesmos. Que a Igreja, toda ela, possa viver a anáfora não apenas como rito, mas como estilo de vida: elevar-se constantemente a Deus, oferecendo com Cristo a própria vida pelo mundo.
1. “Sursum corda! – ¡Levantad los corazones!” Es esta la invitación que resuena en cada Santa Misa, conduciendo al Pueblo de Dios a la comunión con el misterio pascual de Cristo. En estas palabras se concentra el gesto de la Iglesia que, desde los primeros siglos, aprendió a elevar el corazón y la mirada hacia lo alto, en actitud de adoración, gratitud y ofrenda. A este movimiento espiritual y litúrgico, los Padres de la Iglesia dieron el nombre de anáfora, palabra que, etimológicamente, significa “elevar, ofrecer, llevar hacia lo alto”.
2. Esta elevación no es solamente simbólica: expresa la realidad más profunda de la fe cristiana. En la Oración Eucarística, toda la Iglesia se eleva en Cristo, el Sumo y Eterno Sacerdote, para ofrecer al Padre el sacrificio de la redención. La anáfora es, por tanto, el corazón palpitante de la Liturgia, el culmen de toda acción eclesial y el lugar por excelencia de la comunión entre el cielo y la tierra.
3. Desde la Iglesia primitiva, la anáfora se configuró como el centro de la celebración eucarística. San Justino, en el siglo II, describe con sencillez y profundidad este momento sublime: “Él [el presbítero] eleva al Padre del universo alabanza y gloria, en el nombre del Hijo y del Espíritu Santo, y da gracias largamente por el hecho de haber sido juzgados dignos de estos dones”. Esta tradición viva, transmitida de generación en generación, manifiesta la conciencia de que la Eucaristía no es una creación humana, sino un don recibido y continuamente renovado por el Espíritu Santo.
4. Las diversas familias litúrgicas, tanto de Oriente como de Occidente, expresaron por medio de sus múltiples anáforas la riqueza inagotable del misterio de Cristo. La variedad no es signo de división, sino expresión de la catolicidad de la Iglesia: una sola fe, celebrada en múltiples formas, todas convergiendo hacia la misma alabanza trinitaria: “Per ipsum et cum ipso et in ipso…”
5. Así, la Iglesia siro-occidental, la copta, la etíope y tantas otras conservaron, con veneración, decenas de anáforas, mientras que el Rito Romano, fiel a su sobriedad y noble sencillez, vio florecer su propio Canon Romano, enriquecido a lo largo de los siglos. En todas ellas resuena la misma convicción: “es justo y necesario darte gracias, Señor, Padre Santo”.
6. La pluralidad de las anáforas es una riqueza espiritual que debe redescubrirse. En las últimas décadas, la introducción de nuevas Oraciones Eucarísticas en el Misal Romano manifestó una apertura a la tradición oriental y una legítima sensibilidad pastoral. Sin embargo, esta multiplicidad corre el riesgo de reducirse, en la práctica, a una uniformidad empobrecida, cuando se elige casi exclusivamente la Oración Eucarística II por mera conveniencia o brevedad.
7. Tal práctica pastoral, aunque comprensible, no puede convertirse en norma. Pues la liturgia, en cuanto obra de Cristo y de la Iglesia, no se mide por la eficiencia del tiempo, sino por la profundidad del misterio celebrado. Cada anáfora posee una teología, una espiritualidad y un lenguaje propios, que enriquecen la fe de los fieles y ayudan a la Iglesia a celebrar la totalidad del misterio pascual.
8. Invito, por tanto, a los presbíteros a profundizar en la espiritualidad de las Oraciones Eucarísticas, redescubriendo en ellas el itinerario espiritual que conduce desde la alabanza inicial hasta la doxología trinitaria final. Celebrar la liturgia es dejarse conducir por el Espíritu, y no simplemente “cumplir un rito”.
9. En el siglo IV, la Iglesia vivió un tiempo fecundo de reflexión sobre el misterio eucarístico. Santos como Ambrosio, Agustín y Juan Crisóstomo, en diversas tradiciones, enseñaron con sabiduría que el altar es el lugar de la transformación: no solo del pan y del vino, sino también de la vida de los fieles. Por eso, cada anáfora es catequesis viva, teología rezada y proclamada.
10. El desarrollo de las anáforas nunca fue resultado de imposición o invención arbitraria, sino fruto del crecimiento orgánico de la tradición, iluminado por el Espíritu Santo. La liturgia no se fabrica; nace de la fe orante del Pueblo de Dios. Cuando se intenta modelarla según criterios humanos de utilidad, se corre el riesgo de debilitar su fuerza espiritual y pedagógica.
11. Así, la verdadera renovación litúrgica no consiste en multiplicar fórmulas o abreviar ritos, sino en profundizar en el sentido del misterio, dejando que cada palabra, gesto y silencio revelen la presencia del Dios vivo que actúa en la Iglesia.
12. El Catecismo de la Iglesia Católica recuerda que “con la Oración Eucarística llegamos al corazón y al culmen de la celebración” (n. 1352). En ella, la Iglesia se une a la acción de gracias de Cristo al Padre y participa de su sacrificio redentor.
13. Cuando el sacerdote pronuncia las palabras de la anáfora, es toda la Iglesia la que habla: el Cuerpo unido a la Cabeza. En ese momento, la creación entera es recapitulada en Cristo y ofrecida al Padre “en unidad con el Espíritu Santo”. Por eso, cada “Amén” del pueblo es una profesión de fe, el sello de la comunión que nos hace un solo cuerpo y un solo espíritu.
14. La anáfora nos enseña que la liturgia es siempre un movimiento ascendente y descendente: elevamos a Dios la alabanza, y de Él recibimos la gracia. El altar se convierte, así, en el punto de encuentro entre el cielo y la tierra, entre lo divino y lo humano, entre la ofrenda y el don.
Redescubrir el Corazón de la Liturgia
15. Amados hijos de la Iglesia, redescubran la belleza y la profundidad de las anáforas. Que cada sacerdote celebre con conciencia y reverencia; que cada fiel participe con el corazón elevado, reconociendo en el altar el lugar del amor supremo de Cristo.
16. Que las diversas Oraciones Eucarísticas sean, de verdad, expresión de la riqueza de la fe, y no de la prisa de los hombres. Que cada comunidad cristiana pueda saborear el silencio, la belleza y la densidad espiritual de la liturgia, como verdadera escuela de oración y comunión.
17. La Liturgia es el acto de Cristo y de la Iglesia. Cuando celebramos la Eucaristía con fe, el Espíritu Santo transforma el pan y el vino, pero también nos transforma a nosotros. Que la Iglesia entera pueda vivir la anáfora no solo como rito, sino como estilo de vida: elevarse constantemente a Dios, ofreciendo con Cristo la propia vida por el mundo.
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SCHMIDT, Gerson. A importância das anáforas na Liturgia. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt. Acesso em: 21 out. 2025.
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Loyola, 2021.
JUSTINO, São. Apologia I. In: FONTES CRISTÃS. São Paulo: Paulus, 2002.
