CATEQUESE DO SANTO PADRE BENTO VIII
AUDIÊNCIA GERAL
[24 DE SETEMBRO DE 2025]
.
___________________
Manete in dilectione mea!
(Jo 15,9)
[PT]
Queridos irmãos,
Hoje quero refletir convosco sobre um tema que toca o coração da vida cristã e da vida da Igreja: a relação com o sagrado, particularmente quando falamos da liturgia, que é a fonte e o cume da nossa fé, o lugar em que Cristo Ressuscitado continua a nos encontrar, a nos salvar e a nos enviar em missão. Sem esta ligação profunda com o mistério de Deus, a fé corre o risco de se tornar apenas uma ideia abstrata, uma filosofia de vida ou até mesmo um conjunto de ritos vazios. Quando o sagrado se perde, perde-se também a chama interior que sustenta a nossa esperança.
Vivemos em um tempo marcado por enormes conquistas da ciência e da técnica, mas também por uma profunda dispersão espiritual. O ritmo frenético da vida moderna faz com que o homem esteja constantemente ocupado, dividido entre múltiplas tarefas, exigências e preocupações. Muitas vezes, o coração humano, em meio a tantas vozes e estímulos, não encontra mais espaço para o silêncio, para a interioridade, para a contemplação. E, sem silêncio, não há abertura para o mistério. É no silêncio que Deus fala, é no recolhimento que se percebe o sagrado. Quando não cultivamos esse espaço interior, corremos o risco de nos desligar de Deus, de perder a consciência de que somos criaturas chamadas ao encontro com o Criador.
Essa desconexão com o sagrado é um fenômeno real em nosso tempo e tem consequências também para a vida litúrgica da Igreja. Quantas vezes vemos celebrações que se transformam em encontros sociais, em momentos de convivência comunitária — algo bom e necessário — mas que perdem de vista a centralidade do mistério de Cristo. Quando o coração não está voltado para o sagrado, a liturgia corre o risco de ser reduzida a uma simples expressão cultural, ou até mesmo a um espetáculo que busca agradar, mas que já não transmite a presença transformadora de Deus.
Mas aqui precisamos nos deter e perguntar: o que é, afinal, o sagrado? O sagrado é a experiência do homem diante de Deus, diante do totalmente Outro, do Senhor que é Criador e Redentor. É a dimensão da vida que nos recorda que não somos absolutos, mas que existe um fundamento último que nos transcende. Na Sagrada Escritura, o sagrado aparece como aquilo que pertence a Deus e é separado do uso comum para significar sua presença. Quando Moisés se aproxima da sarça ardente, Deus lhe diz: “Tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra sagrada” (Ex 3,5). O sagrado, portanto, é o espaço e o tempo onde Deus se manifesta e nos convida a uma atitude de reverência, adoração e entrega.
Os Padres da Igreja viam o sagrado não como algo que afasta o homem da vida cotidiana, mas como aquilo que dá sentido a toda a existência. Santo Agostinho, por exemplo, dizia: “Inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti, ó Senhor” (Confissões, I,1). O sagrado é esse repouso em Deus, essa abertura do coração ao mistério que nos ultrapassa, mas que ao mesmo tempo nos envolve e nos sustenta. O Catecismo da Igreja Católica recorda que “o sentido do sagrado é uma disposição do coração humano diante da majestade de Deus, que suscita veneração e temor filial” (cf. CIC 2142-2144).
Assim, o sagrado não é apenas o lugar físico do templo, nem apenas um conjunto de objetos religiosos. O sagrado é a experiência viva do encontro com Deus, que santifica o tempo, o espaço e a própria vida humana. É uma presença que nos atrai e nos transforma. Na liturgia, o sagrado se torna visível e palpável: nos sinais sacramentais, na Palavra proclamada, no pão e no vinho consagrados, no silêncio cheio de presença, no gesto humilde que expressa a fé. Quando celebramos com consciência, o sagrado educa nosso coração, faz-nos reconhecer que não somos donos da vida, mas participantes de um mistério maior.
É por isso que a liturgia não pode ser reduzida a mero formalismo ou a um espetáculo humano. A liturgia é o lugar privilegiado do sagrado, porque nela Cristo age, atualizando o mistério pascal. Por meio dela, o Senhor nos insere em sua vida divina e transforma nossa existência. Aqui está a grande questão litúrgica: a liturgia nos leva a Deus?
Muitas vezes, infelizmente, caímos em extremos que impedem essa experiência. De um lado, a tentação de um ritualismo sem alma, que executa gestos corretos, mas sem vida interior. Do outro, a tentação da banalização, que transforma a liturgia em uma atividade qualquer, sem reverência, sem silêncio, sem consciência do mistério. Em ambos os casos, o sagrado se perde.
O sagrado, irmãos e irmãs, não nos aliena do mundo, mas nos devolve ao mundo com um novo olhar. A experiência do sagrado nos ensina a viver no cotidiano com reverência, humildade e gratidão. Quando participamos de uma liturgia autêntica, carregada de sentido sagrado, aprendemos que cada instante da vida pode ser transformado em oferenda: o trabalho, a família, o sofrimento, a alegria. Tudo pode ser liturgia espiritual oferecida a Deus.
O sagrado, não é algo distante ou alheio à nossa vida. Não é uma realidade separada que nos afasta do mundo. Pelo contrário, o sagrado nos educa a viver no mundo de modo novo. Na beleza dos sinais litúrgicos, na força da Palavra proclamada, no silêncio carregado de presença, no gesto humilde do sacerdote que parte o pão, aprendemos que Deus é o centro de tudo. E quando Deus ocupa o centro, a vida encontra ordem e sentido. A liturgia, quando vivida com fé, nos ajuda a compreender que cada instante da nossa existência pode se tornar oferenda, pode se tornar comunhão com Deus e serviço aos irmãos.
É por isso que a liturgia tem uma força pedagógica extraordinária. Ela nos educa para o mistério, para a humildade, para o reconhecimento de que não somos senhores da vida, mas discípulos diante do Mestre. Ao entrar numa igreja, ao ver a luz das velas, ao ouvir o canto sagrado, ao perceber o silêncio orante, somos convidados a sair da lógica do imediatismo e da dispersão e a entrar no ritmo de Deus. Não somos nós que construímos a liturgia; é Cristo que nos introduz no seu mistério. Por isso, a liturgia não pode ser inventada ao gosto de cada um. Ela é dom que recebemos, e nossa missão é acolhê-la com fé, celebrá-la com dignidade e deixar que ela nos transforme.
Diante desse desafio, gostaria de propor alguns caminhos pastorais. O primeiro é redescobrir o valor do silêncio. Nossas celebrações muitas vezes são repletas de palavras, cantos e movimentos, mas falta aquele espaço de silêncio em que o coração pode repousar em Deus. O silêncio não é ausência de participação, mas a mais alta forma de participação, porque permite que a Palavra escutada desça ao coração, que a presença de Cristo no altar seja adorada, que a comunidade inteira entre em comunhão com o mistério.
Um segundo caminho é valorizar os sinais e gestos. Cada gesto na liturgia tem um significado profundo. O sinal da cruz nos recorda a nossa salvação; o ajoelhar-se diante do Santíssimo é ato de adoração; o levantar as mãos é súplica; o partir do pão é comunhão. Quando esses gestos são feitos de qualquer modo, sem consciência, perdem sua força. Mas quando são feitos com fé, tornam-se expressão visível daquilo que o coração vive.
Um terceiro caminho é viver a liturgia com dignidade e sem pressa. A liturgia exige tempo, porque é encontro com Deus. Quando celebramos de modo apressado, como se tivéssemos de “cumprir” rapidamente um rito, demonstramos que não compreendemos o essencial. Celebrar exige disponibilidade, atenção, entrega. A liturgia é escola de paciência, de escuta, de acolhida. A liturgia só se cumpre quando transforma nossa vida em liturgia permanente: no cuidado com os outros, na caridade fraterna, na defesa da vida, na evangelização. Se participamos da Eucaristia mas não vivemos plenamente em nossas ações, não compreendemos a liturgia.
Portanto, queridos irmãos, quando participamos da liturgia, recordemos sempre: não estamos apenas repetindo ritos, mas estamos diante de Deus. É Ele quem age, é Ele quem nos salva, é Ele quem nos envia. Não deixemos que a pressa, a distração ou o formalismo nos roubem a beleza do encontro com o Senhor. Redescubramos o sagrado, aprendamos a viver a liturgia como fonte de vida, e assim nossa existência será transformada, tornando-se também ela uma liturgia agradável a Deus.
Deus abençoe a todos!
[ES]
Queridos hermanos,
Hoy quiero reflexionar con vosotros sobre un tema que toca el corazón de la vida cristiana y de la vida de la Iglesia: la relación con lo sagrado, particularmente cuando hablamos de la liturgia, que es la fuente y la cumbre de nuestra fe, el lugar en el que Cristo Resucitado continúa encontrándonos, salvándonos y enviándonos en misión. Sin esta profunda conexión con el misterio de Dios, la fe corre el riesgo de convertirse únicamente en una idea abstracta, en una filosofía de vida o incluso en un conjunto de ritos vacíos. Cuando se pierde lo sagrado, también se pierde la llama interior que sostiene nuestra esperanza.
Vivimos en un tiempo marcado por enormes conquistas de la ciencia y de la técnica, pero también por una profunda dispersión espiritual. El ritmo frenético de la vida moderna hace que el ser humano esté constantemente ocupado, dividido entre múltiples tareas, exigencias y preocupaciones. Muchas veces, el corazón humano, en medio de tantas voces y estímulos, ya no encuentra espacio para el silencio, para la interioridad, para la contemplación. Y sin silencio no hay apertura al misterio. Es en el silencio donde Dios habla, es en el recogimiento donde se percibe lo sagrado. Cuando no cultivamos ese espacio interior, corremos el riesgo de desconectarnos de Dios, de perder la conciencia de que somos criaturas llamadas al encuentro con el Creador.
Esa desconexión con lo sagrado es un fenómeno real en nuestro tiempo y tiene consecuencias también para la vida litúrgica de la Iglesia. ¡Cuántas veces vemos celebraciones que se transforman en encuentros sociales, en momentos de convivencia comunitaria —algo bueno y necesario— pero que pierden de vista la centralidad del misterio de Cristo! Cuando el corazón no está orientado hacia lo sagrado, la liturgia corre el riesgo de reducirse a una simple expresión cultural, o incluso a un espectáculo que busca agradar, pero que ya no transmite la presencia transformadora de Dios.
Pero aquí debemos detenernos y preguntarnos: ¿qué es, en definitiva, lo sagrado? Lo sagrado es la experiencia del hombre ante Dios, ante el totalmente Otro, el Señor que es Creador y Redentor. Es la dimensión de la vida que nos recuerda que no somos absolutos, sino que existe un fundamento último que nos trasciende. En la Sagrada Escritura, lo sagrado aparece como aquello que pertenece a Dios y que se separa del uso común para significar su presencia. Cuando Moisés se acerca a la zarza ardiente, Dios le dice: “Quítate las sandalias de los pies, porque el lugar donde estás es tierra sagrada” (Ex 3,5). Lo sagrado, por lo tanto, es el espacio y el tiempo donde Dios se manifiesta y nos invita a una actitud de reverencia, adoración y entrega.
Los Padres de la Iglesia veían lo sagrado no como algo que aleja al hombre de la vida cotidiana, sino como aquello que da sentido a toda la existencia. San Agustín, por ejemplo, decía: “Inquieto está nuestro corazón hasta que descanse en Ti, Señor” (Confesiones, I,1). Lo sagrado es ese descanso en Dios, esa apertura del corazón al misterio que nos supera, pero que al mismo tiempo nos envuelve y nos sostiene. El Catecismo de la Iglesia Católica recuerda que “el sentido de lo sagrado es una disposición del corazón humano ante la majestad de Dios, que suscita veneración y temor filial” (cf. CIC 2142-2144).
Así, lo sagrado no es solamente el lugar físico del templo, ni solo un conjunto de objetos religiosos. Lo sagrado es la experiencia viva del encuentro con Dios, que santifica el tiempo, el espacio y la propia vida humana. Es una presencia que nos atrae y nos transforma. En la liturgia, lo sagrado se hace visible y palpable: en los signos sacramentales, en la Palabra proclamada, en el pan y el vino consagrados, en el silencio lleno de presencia, en el gesto humilde que expresa la fe. Cuando celebramos con conciencia, lo sagrado educa nuestro corazón, nos hace reconocer que no somos dueños de la vida, sino partícipes de un misterio mayor.
Por eso la liturgia no puede reducirse a mero formalismo o a un espectáculo humano. La liturgia es el lugar privilegiado de lo sagrado, porque en ella Cristo actúa, actualizando el misterio pascual. A través de ella, el Señor nos introduce en su vida divina y transforma nuestra existencia. Aquí está la gran cuestión litúrgica: ¿la liturgia nos conduce a Dios?
Muchas veces, lamentablemente, caemos en extremos que impiden esa experiencia. Por un lado, la tentación de un ritualismo sin alma, que ejecuta gestos correctos pero sin vida interior. Por otro, la tentación de la banalización, que transforma la liturgia en una actividad cualquiera, sin reverencia, sin silencio, sin conciencia del misterio. En ambos casos, lo sagrado se pierde.
Lo sagrado, hermanos y hermanas, no nos aliena del mundo, sino que nos devuelve al mundo con una mirada nueva. La experiencia de lo sagrado nos enseña a vivir lo cotidiano con reverencia, humildad y gratitud. Cuando participamos de una liturgia auténtica, cargada de sentido sagrado, aprendemos que cada instante de la vida puede transformarse en ofrenda: el trabajo, la familia, el sufrimiento, la alegría. Todo puede convertirse en liturgia espiritual ofrecida a Dios.
Lo sagrado no es algo distante o ajeno a nuestra vida. No es una realidad separada que nos aparta del mundo. Por el contrario, lo sagrado nos educa a vivir en el mundo de un modo nuevo. En la belleza de los signos litúrgicos, en la fuerza de la Palabra proclamada, en el silencio lleno de presencia, en el gesto humilde del sacerdote que parte el pan, aprendemos que Dios es el centro de todo. Y cuando Dios ocupa el centro, la vida encuentra orden y sentido. La liturgia, cuando es vivida con fe, nos ayuda a comprender que cada instante de nuestra existencia puede convertirse en ofrenda, en comunión con Dios y en servicio a los hermanos.
Por eso la liturgia tiene una fuerza pedagógica extraordinaria. Nos educa para el misterio, para la humildad, para el reconocimiento de que no somos señores de la vida, sino discípulos delante del Maestro. Al entrar en una iglesia, al ver la luz de las velas, al escuchar el canto sagrado, al percibir el silencio orante, somos invitados a salir de la lógica del inmediatismo y de la dispersión, y a entrar en el ritmo de Dios. No somos nosotros quienes construimos la liturgia; es Cristo quien nos introduce en su misterio. Por eso, la liturgia no puede inventarse al gusto de cada uno. Es un don que recibimos, y nuestra misión es acogerlo con fe, celebrarlo con dignidad y dejar que nos transforme.
Ante este desafío, quisiera proponer algunos caminos pastorales. El primero es redescubrir el valor del silencio. Nuestras celebraciones muchas veces están repletas de palabras, cantos y movimientos, pero falta ese espacio de silencio en el que el corazón puede descansar en Dios. El silencio no es ausencia de participación, sino la forma más alta de participación, porque permite que la Palabra escuchada descienda al corazón, que la presencia de Cristo en el altar sea adorada, que toda la comunidad entre en comunión con el misterio.
Un segundo camino es valorar los signos y gestos. Cada gesto en la liturgia tiene un significado profundo. La señal de la cruz nos recuerda nuestra salvación; arrodillarse ante el Santísimo es un acto de adoración; levantar las manos es súplica; partir el pan es comunión. Cuando estos gestos se hacen de cualquier manera, sin conciencia, pierden su fuerza. Pero cuando se realizan con fe, se convierten en expresión visible de lo que vive el corazón.
Un tercer camino es vivir la liturgia con dignidad y sin prisa. La liturgia exige tiempo, porque es encuentro con Dios. Cuando celebramos apresuradamente, como si tuviéramos que “cumplir” rápidamente un rito, demostramos que no hemos comprendido lo esencial. Celebrar exige disponibilidad, atención, entrega. La liturgia es escuela de paciencia, de escucha, de acogida. La liturgia solo se cumple cuando transforma nuestra vida en liturgia permanente: en el cuidado de los demás, en la caridad fraterna, en la defensa de la vida, en la evangelización. Si participamos en la Eucaristía pero no lo vivimos plenamente en nuestras acciones, no hemos comprendido la liturgia.
Por lo tanto, queridos hermanos, cuando participemos en la liturgia, recordemos siempre: no estamos simplemente repitiendo ritos, sino que estamos delante de Dios. Es Él quien actúa, es Él quien nos salva, es Él quien nos envía. No permitamos que la prisa, la distracción o el formalismo nos roben la belleza del encuentro con el Señor. Redescubramos lo sagrado, aprendamos a vivir la liturgia como fuente de vida, y así nuestra existencia será transformada, convirtiéndose también ella en una liturgia agradable a Dios.
¡Dios los bendiga a todos!
Vaticano, 24 de setembro de 2025.
